Sétimo Mês

Montreal sempre inventa um motivo para festejar, mesmo em fevereiro, quando as noites são longas e mais frias. Montréal en Lumière é a ocasião ideal, como eles dizem, para assistir um show, desfrutar de uma deliciosa refeição, experimentar queijos do Québec e vinhos do Chile, e é claro, apreciar o espetáculo de luzes.

Foi nesse mesmo mês que eu decidi sair da Sita; não consegui me adaptar aos horários propostos pela Cia. Sim, eu trabalhava enquanto todos os Ocidentais dormiam. Definitivamente, não foi essa a qualidade de vida que eu vim buscar no Canadá.

O Pedro vai bem na Boomerang, trabalhando como administrador de redes. O pequeno Rafa já não morre mais de amores pelo Thomas, e agora dedica seu tempo aos desenhos animados de Diego e Dora, personagens que se aventuram na floresta salvando espécies em perigo.

Março foi época de separar a papelada e fazer os impostos de renda do Brasil, do Canadá e do Quebec, atualizar as vacinas do Rafael no CLSC, fazer os exames de check-up no Hospital Judeu, frequentar feiras de emprego, atualizar minha rede de networking, me inscrever no curso de francês do Cégep de Saint-Laurent, e de fotografia no Collège Marsan.

Foi também a época de seguir a tradição e visitar uma Cabane à sucre para experimentar o famoso xarope de ácer.

Mas enquanto a neve lá fora não derrete, eu gosto mesmo é de passear nos shoppings substerrâneos: Les Cours Mont-Royal, Place Montréal-Trust, Centre Eaton, Complexe les Ailes, La Baie, Place Villa Marie, Promenades Cathédrale entre outros.

Meus cabelos, depois de 7 meses, conheceram as tesouras de Reinaldo Pereira, um brasileiro que atende em casa ou no Salão Continental da Place Dupuis. Com ele, aproveitei também para relaxar as madeixas com produtos da L'oréal, já que por aqui não existe o Photon Hair Uom da Tânagra; a empresa só exporta o produto para o México, Itália, Estados Unidos, Portugal, Grécia e Austrália. O resultado não é o mesmo, mas eu me contento com o que Montreal tem.

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Sexto Mês


É fato que o clima afeta o humor das pessoas. Quem não gosta de frio e escuridão, certamente vai se sentir deprimido no inverno. E esse certamente é o motivo que faz com que 1 milhão de canadenses escapem todos os anos.


Outros amam o inverno. Eles se adaptam ao clima e aproveitam as vantagens da estação. É para estes, que os grandes parques da cidade anunciam as atividades de inverno. E nem é preciso sair da ilha para aproveitar a natureza. O Parque de Montreal é um exemplo, que oferece 22km de pistas, um grande lago para patinação, e a melhor vista da cidade.

O inverno influencia também a forma de viver, de se vestir, de construir e até mesmo de comer.
As construções, por exemplo, devem resistir ao frio, ao vento, a umidade e ao calor ou a todas essas condições associadas.

Para sobreviver aqui é preciso ser forte e criativo. E criatividade não faltou para invenções como o snowmobile e o snowblower.

De acordo ao The Weather Network, a média da temperatura nos meses de janeiro e fevereiro gira em torno de -9oC e -8oC, respectivamente. Nada tããão assustador!!! Assustador mesmo eram os dias de sol e de vento.

Para mim, o vento é o grande vilão do inverno, que provoca
sensações térmicas de -30oC. Nesses dias, era lógico que eu não tinha coragem de sair da toca, onde o termômetro marcava 25oC e a gente vestia bermuda e camiseta.

O que também me impressionou durante esses meses foi a quantidade de neve que cai por aqui. Dizem que nunca nevou tanto nos últimos 40 anos. E desde outubro já foram 262cm de neve em Montreal. Até mesmo os donos de estações de sky admitem que esse ano já nevou demais. E o inverno ainda nem acabou!

Por conta da friaca lá fora, atividades sociais foram planejadas dentro da toca. Um simples café ou um jantar, e assim ocupamos nossas agendas.

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Quinto mês


Agências de viagens anunciam as cores da República Dominicana, as praias de Cuba, a cultura Mexicana e o calor de Bahamas. Para os québécois, a chance de fugir do inverno! Deixa, no ano que vem, eu também estarei me rendendo aos prazeres do sol!!! Enquanto isso, vou vivendo no lugar que é mais frio que o freezer da Electrolux que eu tinha lá no Rio. E o sol é apenas a luz dessa enorme geladeira.

Em 16 de dezembro outra forte tempestade de neve caiu sobre Montreal e as ruas ainda acumulavam a neve da tempestade anterior. Foi um caos! Mais de 1 metro de neve pelo caminho, atrasos, engarrafamentos, stress e -20 milhões na conta do governo que prometeu limpar tudo antes de Natal. E limpou!

Os dias passam rápido, as noites chegam mais cedo... O início do inverno me assusta!


A minha nova rotina me cerca de ansiedade. O trabalho da Sita não é complicado, somente os horários me chateiam. No meu departamento se trabalha 24h/7d e a rotação é mensal. A Sita está sempre procurando gente para preencher o quadro de funcionários, por isso quem fala português, espanhol, inglês e francês, pode trabalhar lá sem problemas.

As tentativas de fazer minhas próprias unhas continuam a me frustrar. E por horas eu me arrependo de jamais ter feito um curso de manicure. Da mesma forma, os botões das minhas roupas se acumulam numa caixinha porque eu não sei costurar... E às vezes, a criatividade para cozinhar também me falta.

Tenho tentado me organizar, fazendo uma tarefa a cada dia. Ter empregada doméstica por estas terras custa uma fortuna, a qual eu ainda não consegui acumular, e viver sem a ajuda de uma delas exige disciplina. Então, todos da família devem ajudar. É regra para o bom convívio e o não desenvolvimento da loucura, porque aqui de cada seis pessoas, uma é doente da cabeça. E eu definitivamente, não quero fazer parte desta estatística.

E por falar em fortuna, um dia desses eu li no jornal que os canadenses são os mais consumistas do mundo inteiro. Mas, muitos preferem fazer suas compras nos EUA. E não é por menos, os produtos vendidos no Canadá são em média 17% mais caros que os vendidos nos EUA. E em setembro, quando o dólar canadense ficou no páreo com o dólar do Tio Sam,
cerca de 4 milhões de canadenses nem pensaram duas vezes antes de cruzar a fronteira e adiantaram suas compras de Natal. Os 3 itens mais comprados foram Ipod Touch da Apple, DVD do Shrek 3 e o perfume Hypnose da Lancôme.

O mercado interno reagiu em outubro, baixando seus preços em 25%. Foi aí, que eu comprei os presentes de Natal das crianças. E só!

Após o Natal, as vendas do Boxing Day, baixavam ainda mais os preços. Era promoção pra acabar com qualquer estoque de loja! Mas, eu particularmente, achei que o movimento nos shoppings estava bem tímido. E os jornais, confirmavam: "
Os québécois são menos inclinados as compras de saldo de Natal". No Boxing Day, a média gasta por habitante em Québec gira em torno de 129$, enquanto na província mais rica, Alberta, a média chega a 431$.

É que especialistas em economia dizem que viver em francês sai mais caro. E Québec, é a
província menos rica e a que mais paga impostos em todo o país.

Cerca de 30% da população do Québec vive hoje com a ajuda social, o que possivelmente justifica o crescimento das filas nos bancos alimentares. A média de remuneração semanal é de 692,28$. Enquanto em Alberta, a média é de 787$.


Não que o Québec seja pobre, mas apresenta fatores que atrasam o desenvolvimento da província como por exemplo, taxa de desemprego de 9%, população envelhecida, mão de obra que carece de especialização, dificuldades nas finanças públicas e tímidos investimentos privados.

Mas, mesmo sabendo que o Québec tem lá suas dificuldades, essas são infinitamente menores quando comparadas as do Brasil. E a gente está só começando...

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